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Desejos na Gravidez: Mito ou Verdade?

Artigo publicado na revista Mãe Ideal Janeiro 2009 (pág. 18-22)

Muitos de nós já nos perguntámos se os desejos na gravidez são de facto reais ou se não passam apenas de superstição. Nesta edição, fomos à procura da resposta para os chamados desejos que chegam rápida e inesperadamente. Isabel Ferreira, Enfermeira Especialista em Saúde Materna e Obstétrica da Gimnográvida esclarece as suas dúvidas a respeito deste tema.

“Desejos e aversões alimentares são sintomas frequentemente referidos pelas mulheres grávidas, pelo que seria errado ignorá-los, desprezá-los ou apelidá-los de mito, quando de facto são uma realidade, independentemente da sua origem”, explica Isabel Ferreira.

Uma análise realizada em Abril de 2008 por um portal especializado em assuntos da maternidade (www.gurgle.com), com 2000 grávidas britânicas, revela que actualmente as grávidas sentem mais desejos do que há 50 anos, divulgando que actualmente 75% das grávidas entrevistadas referiram desejos alimentares, enquanto há cinco décadas atrás essa percentagem estava nos 30%.
Isabel Ferreira explica que “não se sabe ao certo a razão para este aumento, mas pensa-se que é meramente cultural e que se deve ao acréscimo da oferta de produtos alimentares e à forma estimulante e convidativa como eles são publicitados”.
Este “estranho despertar de apetites” está dependente de factores psicológicos, culturais, mas também fisiológicos (hormonais e nutricionais).

 

Desejos mais frequentes

A enfermeira entrevistada pela Mãe Ideal refere alguns alimentos avidamente desejados pelas mulheres grávidas, como “o chocolate, os doces, os citrinos, os pickles, as batatas fritas e o gelado”. No começo da gravidez, muitas mulheres sentem mais necessidade de comerem alimentos ácidos ou gelados pois a estes alimentos está associado o alívio dos enjoos, um desconforto característico desta fase. “Dadas as suas origens, os desejos podem estar presentes desde o início e acompanhar a mulher grávida ao longo de toda a sua gravidez”, garante Isabel Ferreira.

As mulheres grávidas costumam referir vontades extremas e repentinas para comer alimentos específicos, alguns já apreciados antes da gravidez e outros que querem experimentar pela primeira vez, apesar de nunca terem sentido essa vontade anteriormente.

“Algumas mulheres referem desejos incontroláveis que as levam a comer substâncias estranhas (1/3 das mulheres entrevistadas durante a pesquisa Gurgle 2008 disponível em www.gurgle.com), tais como cinzas, terra, barro, pasta dos dentes, sabão, gelo, cal, tinta, entre outros. Este fenómeno denomina-se de Pica e crê-se que a sua origem deriva de uma combinação de factores bioquímicos, psicológicos e culturais”, salienta Isabel Ferreira. Em algumas culturas, as mulheres são incentivadas a comer barro pois acredita-se que ajuda a fixar os nutrientes – existem inclusive locais que vendem barro em saquetas com este propósito exclusivo.

 

Repulsa de determinados alimentos

“Se por um lado as mulheres referem sentir um aumento do desejo em comer maior quantidade ou com maior frequência determinados alimentos, por outro lado referem também com grande frequência que ‘enjoaram’ alguns tipos de alimentos. As aversões mais comuns incluem café, chá, alimentos fritos ou com muita gordura, comidas muito condimentadas, carne e ovos”. A origem destas repulsões está também relacionada com factores psicológicos e culturais, mas especialmente com os factores fisiológicos, mais precisamente com a libertação de hormonas que alteram o paladar e o olfacto.

 

De acordo com alguns especialistas, “a vontade extrema e repentina da mulher para comer determinados alimentos tem uma forte componente psicológica, associando-se frequentemente a sensações de insegurança e à necessidade de mais atenção, típicas desse momento da sua vida, mas não há dúvidas de que também existe uma origem fisiológica a impulsionar estas necessidades”, esclarece Isabel Ferreira.

Por outro lado, acrescenta a Enfermeira Especialista em Saúde Materna e Obstétrica, “algumas hormonas libertadas ao longo da gravidez (tais como HCG e progesterona) são as maiores responsáveis pelas alterações no apetite, no paladar e no olfacto que justificam mudanças de comportamento alimentar da grávida no que diz respeito ao aumento da quantidade de alimentos ingerida e à alteração das suas preferências alimentares”.

Adicionalmente, as carências nutricionais também têm evidenciado relação directa com alguns desses desejos: o desejo repentino por doces está frequentemente associado a uma baixa de hidratos de carbono e o desejo por frutas a uma necessidade corporal de aumentar o aporte vitamínico e podem estar especialmente presentes se a mulher não fizer refeições equilibradas e frequentes, necessárias para garantir a alteração das necessidades nutricionais do seu corpo desde que engravidou.

 

Conselhos aos companheiros e familiares mais próximos

 Algumas grávidas não se sentem muito confortáveis com as alterações corporais típicas da gravidez, referindo que se sentem “gordas, feias ou menos atraentes”. Isto leva a que, para além dos factores fisiológicos atrás descritos, a mulher sinta uma necessidade de mais mimo e atenção por aqueles que a rodeiam, e os desejos mais estranhos e difíceis de ser realizados surgem assim para por à prova a atenção e a dedicação do companheiro e de outros familiares mais próximos.

 Muitas mulheres, sem estarem grávidas, sentem já com frequência alguns desejos por alimentos “diferentes” e a horas “impróprias”, sendo que essa necessidade se agrava com o aumento da sensibilidade característico do período gravítico, o que, associado à necessidade de mais atenção, leva muitos maridos a levantarem-se a meio da noite para satisfazer essas necessidades.

 Apesar de, nestes casos, estas não serem de facto necessidades alimentares essenciais, as necessidades emocionais são uma realidade. É importante que as grávidas, os companheiros e os familiares próximos das mesmas estejam conscientes de que não há perigo para o bebé se uma necessidade específica e repentina não for satisfeita.

 Atender a um pedido, desde que não se torne num sacrifício para quem o faz, pode ser um carinho adicional e um apoio especial importante nesta fase mais carente da vida da mulher.

 Aos companheiros, Isabel Ferreira sugere que mostrem o seu carinho e amor e elogiem com frequência as alterações corporais da sua companheira (exemplo: “A gravidez fica-te mesmo bem”) e sempre que um desejo mais difícil de realizar surja, façam questão de salientar que sempre que vão preparar o alimento apetecido, o fazem pelo amor e carinho que vão oferecer nesse alimento e não porque acreditam que há perigo do bebé vir a nascer com a cara do alimento apetecido.

 Todo o excesso é negativo, pelo que é obrigação do companheiro e dos familiares próximos tentar controlar os comportamentos alimentares mais excessivos e desequilibrados, pois podem tornar-se perigosos para a mulher e para o desenvolvimento e o bem-estar fetal.

 

Desejos perigosos para a gravidez?

“Satisfazer todos os desejos na gravidez pode tornar-se num caminho difícil de retornar. Estas vontades extremas e repentinas que muitas mulheres sentem por determinado tipo de alimentos podem ser prejudiciais à saúde da futura mãe e consequentemente a saúde e o desenvolvimento fetal”, indica Isabel Ferreira. O excessivo aumento de peso tende a ser um problema frequente, com consequências muito negativas para o feto e para a mulher, durante e após a gravidez. O excesso de doces e substâncias exóticas pode alterar o equilíbrio nutricional da grávida, provocando excesso de peso, diabetes gestacional ou hipertensão arterial.

“Por outro lado, apesar de alguns desejos alimentares estranhos serem inofensivos, outros podem trazer graves consequências à saúde da mulher e do feto, tais como o consumo de tinta ou de alguns tipos de terra, que podem causar envenenamento por chumbo. Há também o risco de consumir parasitas perigosos. Outras substâncias podem inibir a absorção de nutrientes na comida e piorar as deficiências presentes. A Pica pode também causar problemas gástricos, intestinais e urinários muito graves”, alerta Isabel Ferreira.

A grávida deverá sempre informar o profissional de saúde que a acompanha durante a gravidez dessas necessidades que tem sentido, para que ele a ajude a reduzir o efeito fisiológico que possa estar a provocar este comportamento e a auxilie a elaborar um plano para controlar esses comportamentos perigosos.

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