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Quer uma “Horinha Rápida”? Caminhe!

Um estudo realizado na Universidade de São Paulo concluiu que caminhar durante o trabalho de parto encurta a duração do mesmo.

 

A autora verificou que “a quantidade deambulada durante as três primeiras horas da fase ativa está associada a um encurtamento do trabalho de parto, sendo que a cada 100 metros percorridos ocorreu uma diminuição de 22 minutos na primeira hora, 10 minutos na segunda hora e 6 minutos na terceira hora.”

 

Os dados apontam ainda que a utilização de ocitocina artificial e a ruptura da bolsa amniótica não influenciaram na duração da fase ativa do trabalho de parto.

 

tecnologia q.B.

A autora introduz o estudo realçando o quanto a tecnologia foi, nos últimos séculos e de forma crescente, entrando pelas salas de parto e reservando um lugar cativo nas mesmas: “Atualmente, discute-se no mundo inteiro se as intervenções e tecnologias utilizadas no nascimento são realmente valiosas e necessárias.”

Esta é também uma preocupação da Organização Mundial de Saúde que, em conjunto com outras organizações internacionais, procurou diferenciar as práticas úteis e que devem ser estimuladas de práticas claramente prejudiciais ou ineficazes e que devem ser eliminadas.

A autora recorda ainda a Conferência sobre Tecnologia Apropriada, que teve lugar em Fortaleza – Ceará, no ano de 1985, como um momento importante na revisão das tecnologias a adotar no momento do nascimento e parto, bem como no “resgate dos conceitos de nascimento e parto como eventos fisiológicos”. “Nessa ocasião, foram elaboradas recomendações para a obtenção de partos e nascimentos mais naturais”, das quais a autora destaca a seguinte:

“Não se recomenda colocar as parturientes em posição de litotomia e/ou dorsal durante o trabalho de parto e parto. Deve-se encorajar a mulher a andar durante o trabalho de parto, e cada mulher deve ter a liberdade para escolher a posição a ser adotada quando está parindo”.

 

 

como chegámos à posição dorsal

“Há menos de três séculos, a maioria das mulheres de todas as raças e culturas adotava uma posição vertical durante o trabalho de parto e parto” relembra a autora.

François Mauriceau, médico francês do século XVII, é dado como o grande impulsionador da mudança posição do parto de vertical para horizontal, sugerindo que “a posição reclinada seria a mais confortável para a parturiente e para o profissional que assiste o parto.” Esta posição ficou conhecida como posição francesa, contrastando com a posição deitada sobre um dos lados, utilizada em Inglaterra e conhecida como posição inglesa.

Segundo as referências bibliográficas que serviram de base a este estudo, “o aumento do uso de fórceps e da prática das cirurgias, a partir do século XVIII, parece ter sido também importante fator na manutenção das posições reclinadas e de litotomia”. E acrescenta: “no decorrer da progressiva medicalização do parto, a posição horizontal se estabeleceu em definitivo por facilitar o trabalho do profissional para extrair a criança e observar atentamente a situação do períneo, a fim de realizar a episiotomia.”

Segundo Osava (1990), um dos autores que a autora faz referência neste estudo, “o parto em posição supina é mantido devido à comodidade médica, em detrimento de uma participação mais ativa da mulher.”

A autora reserva também um espaço para realçar o enquadramento da mulher no hospital, onde é encarada na condição de paciente, mesmo não sendo a gravidez considerada doença. Salienta a perda do controlo sobre o seu próprio corpo, a sua privacidade e a sua individualidade.

 

 

caminhamos?

Com recurso à história e antropologia, a autora relembra, através da sua pesquisa, que as mulheres, em sociedades não influenciadas pela obstetrícia ocidental, ainda tendem preferir posturas eretas durante o trabalho de parto e o parto: “ficando agachadas, sentadas, ajoelhadas, de cócoras ou andando, e frequentemente mudam sua posição durante cada contração”.

A autora prossegue referindo que “muitos obstetras famosos, desde o final do século XVII, já reforçavam a importância da posição ereta durante o trabalho de parto. O próprio Mauriceau volta a defender esta idéia, talvez por ter percebido que a introdução da posição horizontal prejudicava a evolução do trabalho de parto”:

“… as mulheres sempre tiveram trabalhos de partos mais difíceis quando permaneciam demasiado tempo em suas camas durante o trabalho de parto, sobretudo muito pior quando tratava-se dos primeiros filhos, do que quando lhes era permitido andar e movimentar-se, suportando sua barriga sob os seus braços, se necessário, pois desta maneira, o peso da criança, estando a mulher de pé, faz com que o orifício interno do útero se dilate mais cedo do que na cama, suas dores são menos fortes e frequentes, e seu trabalho de parto muito mais curto” (Mauriceau apud Dunn, 2000, pg 28).

A fisiologia é também uma apoiante assumida do movimento durante o trabalho de parto: “é muito melhor para a mãe e para o feto, quando uma mulher se mantém em movimento durante o trabalho de parto, pois o útero contrai-se muito mais eficazmente, o fluxo sanguíneo que chega ao bebê através da placenta é mais abundante, o trabalho de parto se torna mais curto e a dor é menor. Acresce-se o fato de que, na posição supina, a adaptação da apresentação fetal ao estreito da bacia estará facilitada pela postura materna e assim podem-se prevenir complicações do trajeto.”

Outros estudos têm vindo a relacionar a duração do trabalho de parto com a posição e a deambulação que a parturiente assume durante o trabalho de parto e parto. “A duração diminuída do trabalho de parto em mulheres que deambulavam foi atribuída à melhora na contratilidade uterina, à necessidade diminuída de uso de ocitocina e de analgesia além de menor frequência de parto vaginal instrumental como fórceps, extração a vácuo, episiotomia, entre outros.”

 

 

prática clínica: que implicações?

Perante os resultados do estudo, presentes no início deste artigo, a autora encoraja a transmissão desta informação aos profissionais de saúde que acompanham as mulheres em trabalho de parto e parto. Acredita assim que a deambulação possa vir a ser estimulada na fase ativa do trabalho de parto, tirando partido dos seus benefícios.

Sugere ainda que as conclusões deste e de outros trabalhos que evidenciam a influência do caminhar no trabalho de parto estejam acessíveis às mulheres e em particular às gestantes/parturientes. Desta forma, poderão tomar decisões informadas e conscientes, que poderão ser integradas no seu plano de parto.

 

Este estudo é da autoria de Fabiana Villella Mamede
O artigo poderá ser consultado na íntegra seguindo este endereço: http://www.gimnogravida.pt/wp-content/uploads/2016/08/deambulaçãoParto.pdf

 

 

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